19 jul

A queda de braço entre o Presidente Castello Branco e seu irmão Lauro

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“Em 1966 o presidente Castelo Branco leu nos jornais que seu irmão, funcionário com cargo na Receita Federal, ganhara um carro Aero-Willys, agradecimento dos colegas funcionários pela ajuda que dera na lei que organizava a carreira.
O presidente telefonou mandando que ele devolvesse o carro.
O irmão argumentou que se devolvesse ficava desmoralizado em seu cargo.
O presidente Castelo Branco interrompeu-o dizendo:  – “Meu irmão, afastado do cargo você já está! Estou decidindo agora se você vai preso ou não”. Há outras versões parecidas e comparações fortuitas entre figuras do gênero humano com pouco ou nenhum caráter, para que sobresaia o do Presidente Castelo Branco, homem austero, probo e discreto. E apelações do tipo “é uma questão de berço, é claro!”.  Publico agora, talvez pela 1ª. vez, com base em relato de testemunha viva dos fatos, o que realmente aconteceu.        O Presidente Castelo Branco tinha um irmão que era servidor de carreira da Fazenda Nacional, quando não havia Receita Federal. Na Presidência, foi consultado pelo chefe da Fazenda se poderia nomear Lauro de Alencar Castelo Branco para a chefia do Departamento de Arrecadação da referida Fazenda Nacional. Ele indagou se ele tinha capacidade para tanto. Nomeado, trabalhou e tempos depois seus colegas de São Paulo decidiram fazer uma homenagem por sua contribuição para a unificação das carreiras e criação da carreira de coletores federais, reunindo os coletores, exatores e fieis do Tesouro.  Na homenagem, os colegas lhe deram as chaves de um fusquinha, que não lhe era destinado , mas à sua mulher, Iolanda. Ele ficou muito contrariado, argumentou que funcionário não poderia ganhar presente, muito mais um carro. Os colegas insistiram que o carro não era para ele, mas para a mulher. Naquela noite, Lauro não dormiu tranqüilo. Dia seguinte, ao abrir os jornais de São Paulo, um deles estampou na 1ª. página que ele ( e não ela) tinha recebido um fusquinha. Ficou indignado pois a noticia pretendia atingir seu irmão, o Presidente, tido e havido como pessoa séria. Houve muita exploração política.

Logo se descobriu que se tratava de uma armação de deputada da oposição, Conceição da Costa Neves. Lauro tomou a iniciativa de devolver as chaves do fusquinha e deu o caso por encerrado. O tempo passou e um dia o Presidente Castelo Branco o chamou ao Palácio Laranjeiras, no Rio de Janeiro, para tratar de outra questão, nem falou do fusquinha, mas da intrigalhada feita por sua mulher, Iolanda, que o procurara para solicitar a demissão de uma funcionária do Departamento de Arrecadação que estava cortejando Lauro. Era uma moça de muitos atributos lá colocada por um “jabuti” do alto escalão da República. Iolanda pediu a cabeça na bandeja. Castelo pediu-lhe que exonerasse a senhora, acabando com as pressões de d. Iolanda. Lauro, abespinhado e surpreso, explicou que se tratava de uma questão pessoal e que não via razão para a demissão da assessora, já que não poderia demiti-la do Departamento por se tratar de servidora de carreira, agente fiscal do Imposto de Renda. E mais se fosse uma ordem que se demitia, naquele momento da diretoria do Departamento de Arrecadação. Na hora, perdeu a chefia, dispensou Iolanda e ficou com a amante. Houve exploração na mídia, que não sabendo das investidas de Iolanda junto ao Presidente para afastar a rival, acabou por ligar a demissão ao fusquinha, que entrou para a versão como sendo um Aero-Willys. As vidas dos quatro caminharam por caminhos diferentes. A versão engrandece a figura do Presidente Castelo Branco e diminui a de Lauro e retrata o desejo dos brasileiros de ver o Brasil livre dos que usam o poder para se empanturrar e não satisfeitos, enchem os bolsos das calças, as meias, as cuecas, as pastas, as contas bancárias em paraísos fiscais, com “ as sobras de campanha” na verdade propina, a corrupção que está comendo o país de alto a baixo.

JB Serra e Gurgel (Acopiara), jornalista e escritor

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